sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Não Me Bastasse

Não me bastassem isso e aquilo
Não me bastassem o peso de toda a alegria
E a leveza de toda dor das angústias
Não me bastasse a fugacidade de todos os meus orgasmos
Não me bastasse saciar a fome
Não me bastasse o cio das paixões
Não me bastasse o fio da navalha
Não me bastassem a liberdade das minhas perdas,
O despojamento, a renúncia de tudo e a resignação

Ainda me resta isso
Ainda me resta a teimosia do coração em bater
Ainda me resta a esperança tola que bate à porta
Ainda me resta a coragem de caminhar a segunda milha
Ainda me resta um fio de chama quente
Da torcida que ainda fumega
Ainda me resta um tanto da lembrança boa
Me sobram saudades
Minha sombra não se sacia de mim
Deseja partir em busca de um pouco mais de luz
Minha loucura se desnuda para vestir-me de lucidez
Meu corpo não se contenta comigo
O grito da minha alma não suporta meu silêncio
E minha solidão detesta minha companhia

Não me bastasse esse vazio
Ainda me resta isso
Me resta ainda uma dívida 
Um vício, um pecado
Me resta esse carma
Me resta a maior transgressão
Da maior virtude
Me resta a chance de amar
Me resta a escravidão do desejo de ser livre
E ser quem eu sou

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

O Haver


Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
_ Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.


Vinícius de Moraes

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Ode ao Pôr do Sol










Não é por acaso que os entardeceres me são
Nem tão tristes, nem tão alegres,
Melancólicos, eu diria
Como palhaço retirando no camarim
A maquiagem depois do espetáculo
Não me lembro de nenhum ocaso que tenha sido gratuito a mim
Oferecem-me sempre um pouco do brilho da beleza eterna
Pedindo-me em troca um bocado de dor efêmera
São os olhos de Amon-Rá cerrando as pálpebras no ocidente
Os deuses também se silenciam!
São os olhos de Marte com ares de guerra e crueldade
Vencidos ante a anatomia divinal de Vênus
Seu sono orgástico se prostra ao zanago daqueles olhos vagos
O final da guerra é sempre carregado de uma tristeza necessária!
Caso contrário, a guerra mesma não teria fim.
São os olhos do menino à janela do trem
Que adentra o túnel escuro, sem medo
De lá, da janela, olhando para a boca que engole fumaça, vagões e viajores
Contempla aquela luz que se distancia no passado
Como se fosse esperança do porvir
Há uma luz no fim do túnel!
São os olhos do poeta que em plena alvorada
Escreve uma ode ao Pôr do Sol
Um profeta são, um Cristo louco
Que antecipa sua própria morte, sem medo
E anuncia a vitória do ressurgimento 

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Minha Loucura
















"Ainda me restam mãos
para desatar laços que involuntariamente construí,
ainda me restam pés
para caminhar em direção contrária,
e ainda me resta um pouco
da sábia loucura de me mudar
a cada dia". 

Antônio Augusto Lages

sábado, 10 de novembro de 2012

Ao Sair De Casa



Júlio Diniz

Se for pra sair de casa
Se for pra passar por aquela porta
Que seja para voltar melhor
Ou tão bem quanto saiu
Se for pra sair de casa
Só pra dar uma meia-volta
E na volta voltar pior do que estava
Então dê na chave uma volta e meia
Volte, bata a porta na própria cara

Ao sair de casa
Você não saberá o que lhe espera
Ainda que já tenha planejado o dia
Ainda que a agenda esteja lotada
Apesar da pressa sufocante
Asfixiada pela pressão do mundo lá fora
Apesar do olhar perdido morrendo de medo
De dar de cara com o vazio
Ou mesmo ainda apesar da certeza da rotina
Somos sempre surpreendidos por nós mesmos
Pois arriscar-nos na lida é nossa sina
Nascemos todos  endi-vidados
Temos uma dívida para com Deus
Para com a vida, para com o outro
Temos uma dívida conosco mesmos
E haveremos de pagá-la
Javier Cardona
Tantas quantas vidas se necessário for
Pois o Amor é eterno
O Amor lança fora o medo
E quem não deve, não teme

Ao sair de casa
Você pode fazer seu destino
Mudar o itinerário de alguém
Mudar de vida num encontro

Ao sair de casa você pode ...


Se você gostou, você pode encontrar o texto na íntegra no livro 
 O UMBIGO DE ADÃO, Uma Cicatriz de Dor e Prazer da Existência. Júlio Diniz e Javier Cardona, autores.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

O Lado Oculto da Força

Há uma semelhança entre eles. Foram acometidos de uma enfermidade mortal. 
No entanto, uma diferença abismal que os separa, assim como o agricultor discerne o joio do trigo no momento da ceifa, está no sorriso daquele cujo testemunho me fez chorar.
Durante seu momento de tribulação aquele sorriso de anjo serenou e curou a minha alma.



Lançando a série: 


PERGUNTAS QUE FAREI A MEU PAI NA PRÓXIMA ENCARNAÇÃO QUANDO FOR CRIANÇA


_ Papai, como pode ser competente para dirigir uma nação um presidente que afirma não ter visto, não ter ouvido falar, não ter farejado o rastro do maior esquema de corrupção maquiavelicamente arquitetado e executado sem o menor escrúpulo, sequestrando o sonho de milhares e milhares concidadãos, cujo resgate não tem preço?

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Amizade

Júlio, a amizade é conquista, é presença, é interiorização que leva à consciência dela mesma.
Nos conhecemos e temos uma amizade sim, que se está formando, consolidando, desde este momento, então, sim, saberei de estar no seu coração como você no meu.
Devemos aprender que nada se pretende de uma amizade, pois ela é liberdade, é um vento que sopra e vai e nós sabemos que ele vai retornar, não importa quando, trazendo a brisa de um sentimento seguro onde não devemos provar nada a ninguém, mas estarmos sempre presentes, para o que der e vier. Um grande abraço mais uma vez e continue com seus objetivos sempre em sintonia com Deus!!!

por Fernanda Belotti





Cara Insegnante, mi perdoni.
Ando molto negligente.
Grazie di tutto!

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

AMANHECER


Leia ouvindo: http://www.youtube.com/watch?v=R4bERVn6USE














TODO AMANHECER
TODA ALVORADA
TODO SOL QUE RESSUSCITA CADA MANHÃ É UM LUTO
TODO BRILHO QUE CORRE DA CABECEIRA DO HORIZONTE LESTE
TODA AUROA RENASCE COMO NASCE O RIO NUMA VERTENTE
DE UMA MONTANHA GIGANTE QUE TOCA OS CÉUS
NUM LEVANTE, À MONTANTE NO ORIENTE
QUE ORIENTA O CURSO DO LEITO À JUSANTE
ONDE SE DEITAM AS ÁGUAS
AGUÁS QUE SONHAM SILENCIAR MANSAMENTE
SUA VOZ NO ENCONTRO COM O OCEANO AZUL
LUZ QUE BROTA DE UMA DAS PÉTALAS QUE SE DESPRENDE
DA ROSA DOS VENTOS RECHEADA DE PONTOS CARDEAIS
PONTO DE ENCONTRO ONDE FORAM  MARCADOS
A HORA E O LOCAL DE UM VELÓRIO
ONDE SE ACENDE A VELA EM MEMÓRIA DE UM DIA MORTO
ONDE A CANDEIA SE DERRETE EM LÁGRIMAS
CUJOS OLHOS MIÚDOS E CINTILANTES CHORAM O SEPULTAMENTO
DE UMA VIDA CHAMADA ONTEM

TODO AMANHERCER É UMA CERIMÔNIA FÚNEBRE
ONDE QUEREMOS ABRAÇAR O BRILHO FRESCO, MACIO, BRANDO E SILENTE 
DA DISTANTE ESTRELA CENTRAL DO SISTEMA SOLAR
AQUELE DISCO DE VINIL DOURADO QUE EMANA
O RÉQUIEM DE WOLFGANG AMADEUS MOZART
E QUE , NO ENTANTO, É UM VERBO ENCARNADO, UM CRISTO
UM ESPÍRITO DE LUZ CUJO MILAGRE É, EM VERDADE, ARTE
QUE METAMORFOSEIA AQUELA ÚLTIMA COMPOSIÇÃO MAGISTRAL DE UM GÊNIO
CUJA OBRA INCOMPLETA É FINALIZADA PELO AMIGO E DISCÍPULO FRANZ XAVER SÜßMAYR
ENTOADA EM RÉ MENOR E PESADA DOR MAIOR
MISSA FÚNEBRE  CONVERTIDA EM DOCE E LEVE  FESTA DO AMANHECER
A SÉTIMA SINFONIA DE EVARD HAGERUP GRIEG
TRILHA SONORA PARA ACOMPANHAR A PEÇA TEATRAL PEER GYNT
BOA NOVA ANUNCIADA PELO APÓSTOLO HENRIK IBSEN
UM PRODUTOR, CUJA OBRA CAUSOU ESPANTO E ESCÂNDALO EM SUA ÉPOCA
UM CRISTO DE SEU CONTEXTO HISTÓRICO
ISTO! 
UM MILAGRE DE TRANSUBSTANCIAÇÃO! 
UMA ALQUIMIA!
PÃO ADORMECIDO E EMBOLORADO TRANSFORMADO EM CARNE VIVA
ÁGUA VIVA DOS OLHOS EM VINHO DA ALEGRIA
SANGUE EM TINTA PARA ESCREVER UMA BIOGRAFIA
ANTONIO SALIERI E JUDAS ISCARIOTES, ALGOZES 
AGORA SENTADOS À MESA PARA DIVIDIR O PÃO DA ÚLTIMA CEIA
A MERDA USADA COMO ADUBO PARA UM JARDIM FLORIR
A FIM DE  RECEBER A FUGAZ VISITA DO COLIBRI 
DA PENA FRENÉTICA DE SEU CORPO ALADO
PINTA A BELEZA INFINITA DA LIBERDADE
DE QUEM SABE AMAR E VIVER


TODO AMANHECER É UM LUTO
UM VELÓRIO QUE CHORA UM DIA MORTO, UM ONTEM
UM TEMPO QUE PARTIU E DEIXA UM EFÊREMO RASTRO DE LEMBRANÇA
UM PASSADO CUJAS PEGADAS NO CHÃO EMPOEIRADO DO CAMINHO
SERÃO APAGADAS UM DIA PELO VENTO E TRANSFORMADAS EM OBRA DE ARTE
UM MISERÁVEL VINCENT VAN GOGH CUJA OBRA TEM PREÇO IMENSURÁVEL
TODO AMANHCER É UM LUTO
UM RITUAL FÚNEBRE EM MEMÓRIA DO SEU CREPÚSCULO ANTERIOR
LUTO QUE APUNHALA O PEITO
E NÃO MATA UM CORAÇÃO QUE INSISTE EM PULSAR
RESISTE EM SEU MOVIMENTO SOLITÁRIO DE CONTRAIR E EXPANDIR
QUE SABE QUE A VIDA SEGUE E DESTA VERDADE NÃO PODE FUGIR
COMO CRIANÇAS QUE BRINCAM NUM CARROSSEL
CARREGADO DE ALTOS E BAIXOS
QUE GIRA AO SOM DE UMA MÚSICA ALEGRE
O FIM DA MÚSICA ASSINALA O FIM DO ENTRETENIMENTO
NO ENTANTO, AS CRIANÇAS CHORAM E ESPERNEIAM
POIS SEU DESEJO É CONTINUAR VIVENDO
A DOCE ALEGRIA DE BRINCAR DE VIVER

" Pode o choro durar uma noite, mas logo pela manhã a alegria sempre vem" Salmo 30, do Rei Davi

Júlio Diniz

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

RAVE - O Lado Negro da Força



Foi a primeira Rave de que participei. Um pai de 42 anos de idade, levado por seu filho de 21 anos ( Henrique Diniz). Exatamente a metade de minha idade.

Eu não vi um ato de violência sequer. Não presenciei ninguém atentando contra a própria vida.
Eu vi apenas jovens vivendo deliciosamente, permitindo-se mover no ritmo da música da vida.

Não vi nenhum playboyzinho bombado querendo quebrar o braço de seu próximo.Vi rapazes malhados que apenas expunham seus corpos à procura do seu próprio passo de dança. Cada qual dançando à sua própria maneira. Vi mulheres lindas, maravilhosas, deliciosas, desejando apenas estarem ali, sem ser incomodadas por cantadas baratas, curtindo, na própria solidão, o desejo de serem elas mesmas.

Eu parecia estar num paraíso, onde a gente esquece as mazelas, as dores e a sacanagem do mundo que rola lá fora.

Porto Faria ou Cannabis Sativa?
A escolha é minha. Sendo minha ,portanto,
a responsabilidade das consequências.
Doce, balinha? Minha mente já é, por natureza, hiperativa.
Sofro de diabetes mental, excesso de dopamina.
Amo os prazeres da carne e da alma.





E qual é o lado negro da força?

Está no fato de que todos nós podemos esquecer do discurso de paz que ali  construímos juntos e agirmos como religião que mercadeja o amor. Podemos agir, se formos atraídos pelo lado negro da força, exatamente como igrejas evangélicas que vendem um amor que nos é dado gratuitamente. Dentro de quatro paredes pregam o amor, mas fora de seus templos suntuosos, são hipócritas capazes de aprontar qualquer tipo de sacanagem.

O que vivemos juntos nesta festa pode ser pregado ao mundo inteiro e assim podemos construir um mundo melhor.

Um beijo de paz pra todo mundo.

O dedinho vai para os políticos e pastores corruptos e para a maldade.
Foto: OhmArts


NOTA:


Caros amigos e leitores,

Se você gostou, se realmente curtiu meu testemunho, ajude-me a divulgá-lo. Estou querendo envolver os jovens na criação de um projeto de paz que pode ser levado ao mundo. Eu não posso fazer isso sozinho. Não tenho tamanha pretensão. Não é um projeto meu. Eu não quero mudar o mundo. Eu não posso mudar o mundo. Apenas estou mudando minha postura frente aos desafios da vida. É um projeto desta geração. Qual será nosso legado para a geração vindoura? Quem quiser participar é só entrar em contato comigo. Já vou antecipando: não sou candidato a porra nenhuma. Se eu fosse um político, tenho certeza de que me matariam.

Um beijo de paz pra vocês.
Com Deus!


Parte II

Alliance - De Volta Pra Casa



Foi fina a festa! Massa! 








Presenciei dois pequenos incidentes:

*Um chicletes mascado e cuspido na grama. A irritação daquela bosta colada no meu pé distraiu-me momentaneamente, interrompendo minha dança. Nada que uma lixa de unha perdida de alguma moçoila não pudesse resolver. Estou querendo dizer que havia umas trinta lixeiras espalhadas no salão a céu aberto.

* O outro incidente, um pequeno "demônio" se manifestara e foi imediatamente exorcizado pela sagacidade das vaias dos jovens guerreiros em busca de paz.

A música foi-me suficiente para ficar dopado de alegria. 

Logo na chegada, ao estacionar meu carro, estacionou ao meu lado um carro de um jovem que estava aturdido porque batera seu veículo que não poderia mais rodar. Perguntei:
_ Tem seguro?
_ Tenho!
_ Então, velho! Você não vai perder a festa por causa disso. Seguro serve é pra isso mesmo. Passei todas as instruções de como ele deveria proceder.
_ E como vamos embora eu e meus dois amigos?
_Eu tenho três vagas no meu carro, dou carona.

E assim, eu já entrei feliz pra caralho na festa.

Putz! Conheci muita gente bacana. Revi alguns amigos que fiz na festa anterior. Caraca!  Troquei uma ideia massa com o Júlio Jaka sobre como uma greve mundial de lixeiros pode mudar o mundo. Dei de cara com o Pedro, garçon do Jack Rock Bar, que me serviu como se eu fosse um príncipe, enquanto entrei no Jack de chinelo, dois dias sem tomar banho, mas usando Paco Rabanne, quando fui lá pela primeira vez. O cara carrega uma mensagem muito foda no corpo: Uma caveira e um olho bem aberto e vivo. A caveira era para afirmar que todos somos iguais e o olho aberto é porque precisamos estar atentos e abertos ao movimento da vida, explicou-me.. Massa, não é? E ainda há aquelas mentes obtusas que acusam essas tattoos como coisa do capeta. Falando em tattoo, vi tanta gente carregando na pele mensagens tão bacanas como se fossem missionários e missionárias carregando um pergaminho das boas novas de paz e otimismo. Eu acredito nesta geração. Eu boto fé em vocês.

Não encontrei os caras no final da festa, mas havia uma mensagem no pára-brisa do meu carro como forma de agradecimento. Acho que ele resolveu sozinho seu problema. E assim espero, pois a carona esteve disponível.

De resto, Alliance foi tão boa quanto a Harmonic. Nunca faço comparações entre festas, pois, afinal, os grandes responsáveis em fazer uma festa acontecer somos nós mesmos. Pode haver um David Guetta, pode haver a melhor logística, mas quem faz a festa mesmo é quem vai à festa e faz a festa acontecer com espírito de presença. Sem nós, um David Guetta, é um homem sozinho. Mas nesse caso, eu o comparo ao homem que inaugurou a festa Rave. Tinha um dom e quer reparti-lo com o mundo. Obviamente Jesus Cristo foi muito mal interpretado pelo próprio cristianismo quando fez seu primeiro milagre. Foi nas Bodas de Caná, transformando água em vinho, pois a festa não podia parar. Ele mesmo, o Cristo, foi quem disse: "Não é o entra na boca do homem que o contamina, é o que lhe sai da boca." O mal, portanto, está dentro e não fora. Fazer uma escolha é a conversa mais íntima, o segredo que não se confessa ninguém além de si mesmo. É aquele verme a devorar da massa cerebral, cujo ranger dos dentes mastigando a consciência nos tira o sono, nos inquieta, nos tira a paz pela falta da Justiça.

Beijão de paz!  
   

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Sapere Aude




Ah, se você soubesse! Se você ousasse saber!
Se ousasse saber por onde esses pés já pisaram, quais os caminhos tortuosos pelos quais já passaram até chegarem aqui! Exatamente aqui!
Se soubesse que esses calos em minhas mãos não foram feitos de um dia para o outro, que são mistos de trabalho, de mãos atadas, estendidas!
Se soubesse quantas vezes minha boca se calou para que meus ouvidos fossem abertos! E também a minha razão para que meu peito fosse afeto!
Se soubesse como me fiz tola em seu engrandecimento! Em como me fiz penúria para lhe fazer exuberância! Da forma com a qual me desfiz de nobrezas e me despi de mantos para que reluzida fosse minha alma e nada além e, assim, lhe propor soberania!
Se soubesse de quantos sonhos não me desfiz para permanecer acordada em complacência! Da abnegação de tanta dor, quando entendi que seu pranto era maior! Das vezes que me fiz saudável estando enferma para que preocupação alguma ou piedade me fossem dignas!
Se soubesse que minhas cicatrizes são marcas das quais não tenho vergonha, mas antes me deleito por estarem fechadas e me rememorarem o quão custoso foi sará-las! As físicas e principalmente as da alma!
Ah, se ousasse! Se ousasse saber do momento em que me fiz perpétua para lhe garantir tal ousadia!
Se soubesse que me foi negado o direito de morrer para que eu aprendesse a viver!
Se soubesse as quantas barreiras traspassei para chegar mais uma vez aqui! No mesmo ponto de partida: um novo amanhecer que me permita conhecer a mim!

Thetê Cômbat 

Ária na Quarta Corda - Bach
Heaven's Dead - Audioslave

Eu Sou O Capitão De Minha Alma

Foto: Camila Mendes

EU SOU O CAPITÃO DE MINHA ALMA

O SEQUESTRADOR E O REFÉM
O ATIRADOR DE ELITE E O NEGOCIADOR
EU ESTIPULO O VALOR DO MEU RESGATE
E MEU VALOR ESTÁ NO SANGUE QUE ME CORRE NAS VEIAS
COMO RIO IRREPRESSÍVEL QUE AVANÇA PARA O MAR
O GUERREIRO NA LINHA DE FRENTE DA BATALHA
CONS-PIRO A MEU FAVOR ATÉ À MORTE



"AINDA QUE EU ANDE PELO VALE DA SOMBRA DA MORTE, NÃO TEMEREI MAL ALGUM PORQUE TU ESTÁS COMIGO"

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Os Olhos de Édipo



ADAPTAÇÃO DA TRAGÉDIA DE SÓFOCLES















Certa feita visitei uma praça de uma cidade,cujo nome não me lembro e parei para contemplar aquela estátua.
Uma mulher petrificada de olhos vendados, cujo nome é Justiça.
Abaixo da estátua, uma placa de bronze escrita em letras em ouro:

Reza lenda que a Justiça era a mulher mais linda do mundo. Objeto de desejo dos homens e de inveja das mulheres.
Cansada, deprimida, angustiada, numa certa noite fria Justiça se olhou no espelho. Não quis se maquiar para receber o próximo cliente. Renunciou aquele batom escarlate, não pintou as unhas, não usou seu melhor perfume. Vestiu apenas aquele velho vestido branco que mais me lhe deixava confortável.
À porta, mais um homem chegara para para viver um amor leviano.
Perplexo, abandonou a porta aberta, carregando nos olhos o desprezo e a covardia do choque que recebera.
Justiça lhe abrira a porta, vestida naquele velho vestido branco , a face marejada de sangue, estendendo as mãos na direção daquele homem, oferecendo-lhe os próprios olhos.

Perplexo com o que acabara de ler, ali, frente à estátua fria, eu fora possuído pelo espírito de um Padre Orígenes. Prostrei-me perante aquela deusa morta, confessando meus pecados, ofertando meu sacrifício . E o sangue se me escorria por entre as pernas em libação.

Não demorou para a multidão curiosa se ajuntar como se tragédia houvesse acontecido.
Eu não podia mais ver absolutamente nada. Minhas pálpebras se cerraram e eu gemia de dor, no entanto meus ouvidos ouviram todas músicas do mundo ao mesmo tempo.

Júlio Diniz

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Ela e Eu


























Ela:
_ Não vai tomar banho, menino?!

Eu:
_ Vou não, mulher!

Ela:
_Ah, menino... Seu porquinho!

Eu:
_Oh, mulher! Eu ainda estou com o cheiro do amor que ontem fizemos à noite!

Ela:
_ Ah, meu homem! Seu cachorro! Vem cá.

Eu:
abano o rabo.


Javier Cardona

domingo, 2 de setembro de 2012

Abajour




Me deite do lado do teu abajour
me olhe por um minuto
me faça sentir sagrada, especial e única em teu olhar
me toque devagar
me tire a roupa, como quem despe minha alma, suave,
como quem me prepara para o melhor momento de nossas vidas
me sorria
me permita fechar os olhos para enxergar melhor com o corpo a sensação que tua boca me provoca
me enlouqueça sob a luz vermelha do teu abajour, dos meus devaneios e das mais secretas das minhas fantasias!

Lu Rodrigues



Por Enquanto

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Meio Almodovar

http://www.youtube.com/watch?v=i50pHbj4tH8

Hoje to me sentido 
Meio estranho
Meio estrangeiro
Oggi mi sento così
Un po'strano
Un po' a metà
Mezzo Almodovare
Metà santo
Metà peccatore
Oggi mi sento così
Un po' a disaggio
Metà amore
Metà amaro
Mezzo stomaco
Mezzo vomito
Oggi mi sentivo molto strano
Mezzo nido
Un po' uccellino
Un po' oggetto
Mezz'immagine 
Un po' porto
Metà viaggio
Mi sento mezzo morto
Oggi sono così
Metà uomo
Mezzo lupo
Un po' selvaggio
Mezzo pianeta
Metà spazio
Mezzo cometa
Un po' lunatico
Mezza parola
Metà poeta
Mezza musica
Un po' chitarra
Oggi mi sento un profeta
Metà bastardo
Mezza paura
Mezzo codardo
Mezza viola 
Metà prigioniero
Metà carcere
Mezzo Tatuaggio 
Mezza cicatrice
Terra di mezzo
Mezzo gesso
Mezza polvere
Mezza sigaretta
Mezzo fumo
Mezzo sputo
Oggi sono così
Un po' desiderio
Mezzo principio
Mezzo
Fine

(Traduzione: Fernanda Belotti)


Hoje to assim
Meio estranho
Meio pelas metades
Meio Almodovar
Meio santo
Meio pecador
Hoje to assim
Meio sem jeito
Meio amor
Meio amargo

Meio estômago
Meio vômito
Hoje to me sentindo muito estranho
Meio ninho
Meio passarinho
Meio objeto
Meio imagem
Meio porto
Meio viagem
To me sentindo meio morto
Hoje eu to assim
Meio homem
Meio lobo
Meio selvagem
Meio planeta
Meio espaço
Meio cometa
Meio lunático
Meio palavra
Meio poeta
Meio música
Meio violão
Hoje to me sentindo um profeta
Meio canalha
Meio medo
Meio covarde
Meio vilão
Meio prisioneiro
Meio prisão
Meio tatuagem
Meio cicatriz
Meio chão
Meio giz
Meio pó
Meio cigarro
Meio fumaça
Meio escarro
Hoje estou assim
Meio a fim
Meio princípio
Meio
Fim