É Primavera
E não vejo flores
Não me distraio
Com o zumbido
Das abelhas
Sequer tenho medo de picada
Não sinto medo
Não sinto corpo
Nem mesmo o nada
É verão
Meus olhos estão mudos
Minha boca escuta
O choro da cachoeira
Porque sangra o rio
Para mim o mar é salgado
Porque é feito de lágrima
Eu sinto é frio
E estou agasalhado
Da minha própria pele
Salgada e pálida
Salgada porque
Meus póros também choram
E pálida porque é trans-lúcida
E meus ouvidos continuam bem abertos
Ouço oito uirapurus cantarem no deserto
É outono
Nem árvores há
Para que lhes caiam as folhas
Se ouço suas farfalhadas
São, na verdade, gargalhadas
Dos bárbaros que pisotearam meu jardim
Arrombaram os portões de meu palácio
E estupraram as dríades de meu harém
É inverno
Meus sonhos apenas hibernam
Estou insone porque estou vivo
Não consigo dormir
A dor me aquece o coração
Para não ficar congelada
A minha alma
É estação
E eu estou aqui
Com bilhete na mão
E sem destino
Não vejo chegar o trem
Onde sempre tem alguém
Pra não conversar
Logo vem o tempo
Levar na próxima viagem
Esta estação
Que está de passagem
Júlio Diniz


