sexta-feira, 11 de maio de 2012

As Cinco Estações



É Primavera

E não vejo flores

Não me distraio

Com o zumbido

Das abelhas

Sequer tenho medo de picada

Não sinto medo

Não sinto corpo

Nem mesmo o nada



É verão

Meus olhos estão mudos

Minha boca escuta

O choro da cachoeira

Porque sangra o rio

Para mim o mar é salgado

Porque é feito de lágrima

Eu sinto é frio

E estou agasalhado

Da minha própria pele

Salgada e pálida

Salgada porque

Meus póros também choram

E pálida porque é trans-lúcida

E meus ouvidos continuam bem abertos

Ouço oito uirapurus cantarem no deserto



É outono

Nem árvores há

Para que lhes caiam as folhas

Se ouço suas farfalhadas

São, na verdade, gargalhadas

Dos bárbaros que pisotearam meu jardim

Arrombaram os portões de meu palácio

E estupraram as dríades de meu harém



É inverno

Meus sonhos apenas hibernam

Estou insone porque estou vivo

Não consigo dormir

A dor me aquece o coração

Para não ficar congelada

A minha alma



É estação

E eu estou aqui

Com bilhete na mão

E sem destino

Não vejo chegar o trem

Onde sempre tem alguém

Pra não conversar

Logo vem o tempo

Levar na próxima viagem

Esta estação

Que está de passagem



Júlio Diniz