terça-feira, 27 de agosto de 2013

Silêncio















Vou ficar em silêncio
Já é desnecessário gastar minha voz
Melhor cantar como o passarinho
Que mora numa gaiola
E que me acorda todos os dias
Da janela do terceiro andar
A mesma janela
Que dá de frente pra um cemitério
Mas eu vejo a grama verde
Quando vêm as chuvas de verão
E vejo a mesma grama verde
Numa fotografia em sépia
Quando finda a estiagem do inverno
Melhor ficar calado
Poupar as cordas vocálicas
Pra soltar um único grito
A que se tem direito nessa vida
Berrar na beira do abismo
Sombrio e solitário
Acordar os morcegos
Como os sonhos interrompidos na queda
Ouvir um eco
Vou ficar em silêncio
Pra ouvir o barulho da chuva
Vou sangrar a lágrima
Vomitar confissões
Ejacular no papel
Palavras deliciosas
Com tinta feita de suor, sangue e saliva
Já que a vida
É de dar água na boca
Vou ficar em silêncio
Não vou dizer mais nada
Vou falar com os olhos
Despeço-me do mundo
Acenando a Deus da última esquina
Onde o vento se dobra
E se esconde na derradeira encruzilhada
Dizendo adeus com o olhar de nostalgia
Abrindo os braços para o tempo
E gritando:
_Amor!Minha resposta mais clara
Minha verdade mais óbvia
Essa lágrima mais doce
Esse orgasmo tão curto
Desse sorriso que dói
Essa cara que se contorce
Esses olhos que mordem
Esses lábios famintos
O parto que rasga
Essa partida de que não se esquece
Esse pai que não diz
Mas esse filho que ouve:
"_Vou ali, meu filho, comprar cigarros"
Essa promessa que cospe
Na cara da obrigação
Sussurrando:
_AMOR!
Esse gari que segue sorrindo
Na traseira de um caminhão
E recolhe a merda do mundo
Pra adubar a vida
Essa flor que seca.